O que começou com orientações para aproveitar melhor a produção dos pequenos sítios ganhou forma, nome e sabor. Três agricultoras de Araruama se uniram depois de participarem de um curso de capacitação do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e criaram a “Mulheres em Ação”, marca dedicada à produção de doces cristalizados e compotas feitos com frutas cultivadas por elas mesmas. A estreia aconteceu na Expo Araruama 2026 e o resultado superou as expectativas: a produção levada para o evento foi toda vendida.
A iniciativa nasceu a partir do incentivo da Secretaria Municipal de Agricultura, que orientou as produtoras sobre possibilidades de aproveitar melhor os alimentos cultivados nos sítios e agregar valor à produção. A capacitação foi realizada pelo Senar e teve apoio da Emater, que cedeu o espaço da cozinha para a realização do curso e, posteriormente, para que as agricultoras pudessem iniciar a produção.
“Foram três meses de aprendizado, entre março e maio, passando por cuidados com higiene e manipulação dos alimentos até as etapas de produção e comercialização. A partir daí, surgiu a ideia de nos unirmos. ‘Vamos fazer?’ ‘Vamos!’ E criamos o Mulheres em Ação”, contou Wilma Carvalho da Silva, do Sítio Boa Vista.
A proposta é simples e valoriza aquilo que já existe no campo: aproveitar as frutas da época, reduzir o desperdício e levar ao consumidor produtos feitos de forma artesanal. Nesta primeira experiência, o grupo trabalhou com mamão e abóbora, mas os planos são ampliar o cardápio conforme a produção disponível nos sítios.
“Nossa certificação é toda agroecológica. Não tem agrotóxico, não tem nada industrializado. É a fruta e o açúcar, somente. Vamos trabalhar sempre com aquilo que tiver no momento. Batata-doce, aipim...sempre aquilo que tiver. É só da roça, direto do produtor para o consumidor”, explica Wilma.
Para Célia Krichana, que possui um sítio em Palmeiras, a experiência ainda é uma novidade, mas já trouxe a sensação de que o caminho escolhido pode dar certo. Ela destaca também o cuidado necessário em cada etapa da produção.
“Aprendemos desde a higiene, a higienização do espaço, até a venda. É tudo muito recente e ainda temos muita coisa para aprimorar, como o rótulo. Mas foi tudo muito rápido. O doce de mamão cristalizado, por exemplo, leva quatro dias para ficar pronto”, conta.
A agricultora comemora a oportunidade de apresentar o trabalho ao público durante a Expo. “Mostramos o nosso trabalho. Fizemos o curso, aprendemos a fazer os doces e queríamos mostrar. Para mim é uma novidade ainda maior, porque eu nunca tinha trabalhado com isso”, afirma.
Para Adriana Oliveira, que mantém um sítio na região de Banqueiros, na Estrada de São Vicente, a experiência representa mais do que a criação de uma marca. É uma possibilidade de mostrar a outras pequenas agricultoras que a produção rural pode também se transformar em renda e autonomia.
“Nosso objetivo é mostrar para as pequenas agricultoras que elas podem ter a sua renda própria, que podem agregar valor ao seu sítio. Muitas frutas que vão para o lixo podem ser aproveitadas e virar uma geleia, um doce de mamão, de abóbora. A gente vê um desperdício muito grande de frutas no município, principalmente na época de manga e acerola”, destaca.
E foi justamente na Expo que o trio teve a primeira grande confirmação de que a ideia pode ir longe. “Estamos muito felizes porque, quando chegamos aqui e começamos a fazer a degustação dos doces cristalizados, o doce foi embora! Foi muito rápido. A gente não esperava que fosse tão rápido”, comemora Adriana.
A agricultora considera a participação na Expo o pontapé inicial do projeto e já pensa nos próximos passos. “A exposição foi um pontapé inicial para a gente. Esperamos fazer sucesso com os nossos doces, participar de outros eventos e também agregar mais mulheres junto da gente. Nosso espaço está aberto. Queremos mostrar para elas que são capazes e que podem ter sua própria renda no sítio”, afirma.
Um doce encontro
Entre os visitantes que conheceram a novidade estava Fabiana Siqueira, moradora de Macaé, mas que nasceu em Araruama e mantém uma relação antiga com o município. Frequentadora do Galpão Agrícola, onde costuma comprar flores e plantas, ela foi atraída pelo nome “Mulheres em Ação” e se aproximou para conhecer os produtos.
A escolha teve um motivo especial: levar um doce para a mãe. “Eu sempre estou aqui nesse galpão, vendo e comprando flores, plantas. Hoje me chamou a atenção porque minha mãe ama doces assim, de abóbora... Então vim comprar para ela. Ela hoje não tem condições de vir, então estou aqui por ela também”, contou Fabiana.
O encontro resume o propósito do projeto: aproximar quem produz de quem consome, valorizar o que nasce na agricultura local e transformar aquilo que já existe nos sítios em novas possibilidades para as famílias do campo.